quarta-feira, 26 de novembro de 2008



Shalom!
Uma artista que transmite o otimismo, a esperança e o renascer da humanidade através de suas esculturas.
No Papo de hoje: Daisy Nasser!

PIT - Olá Daisy, bem vinda ao Papo em Comunidade!
DN -
Olá Patricia, um prazer falar com você.

PIT - Como começou o seu interesse por esculturas?
DN -
Eu queria liberar o meu lado feminino, tive uma educação rígida e precisava transparecer a minha feminilidade e através das esculturas consegui fazer isto.

PIT - Você teve influência de alguém?
DN -
Não. Tive aulas com Becheroni, Calabroni, mas não tive um ídolo. Meu trabalho é uma conexão com o divino, com a essência...

PIT - O que te inspira para criar as peças?
DN -
Não sei como explicar, eu executo, sou apenas uma “executora”, um instrumento. Sou só um canal. Recebo a inspiração que acredito vir de Deus e executo, sem planejar, sem desenhar e sem retoques.

PIT - Que tipo de material você usa? Você tem alguma técnica especial?
DN -
Trabalho com mármore, alabastro e atualmente laca colorida. Não tenho uma técnica, trabalho no barro, gesso, cera.

PIT - Qual a peça você mais gostou de fazer? Por quê?
DN -
Gosto da “Ternura” que simboliza o nascimento, a “Espiral” que é o crescimento e a “Germinação” a nossa força interior.

PIT - Você acredita que as esculturas falam por si só?
DN -
Eu acho que não, mas as pessoas dizem que as peças transmitem a minha energia.

PIT - Você já expôs em vários lugares do mundo. Os estrangeiros valorizam mais a arte?
DN -
Não acredito. Depende da pessoa e não do local, acho que eles têm mais costume, mas aqui no Brasil tem muitos que dão valor. O que tem me impressionado é a reação das crianças, é fantástico. Quero muito que as pessoas com deficiência visual visitem a exposição, que toquem as peças e sintam a energia.

PIT - Atualmente você está com a exposição “Fonte do Nascer”. Conte-nos um pouco sobre estes novos trabalhos e o que o público poderá apreciar?
DN -
A exposição está na Hebraica, em São Paulo, de terça a domingo, das 9 às 22 horas até o dia 3 de dezembro. São peças brancas e também com cores fortes que transmitem os meus sentimentos de amor, fé, esperança e, sobretudo de otimismo. As esculturas representam o divino, a nossa força e confiança.

PIT - Qual o seu sonho?
DN -
O meu sonho é continuar fazendo o que faço. É passar todo o meu amor, através das esculturas, para mais pessoas. O que sinto é que minha missão é passar coisas boas para as pessoas, fazê-las felizes. E posso dizer que já estou realizando este sonho!

PIT - Daisy, muito obrigada por sua entrevista e deixe aqui o seu recado!
DN -
Obrigada, estou muito feliz de falar com você. Quero dizer para as pessoas que temos um poder ilimitado, de criar, expor emoções e é isso que vai ajudar a gente a sair desse túnel de dificuldades e ver a luz depois, com paz e abundância.
Apareçam na exposição, sintam e tirem suas próprias conclusões...






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quinta-feira, 20 de novembro de 2008


Shalom!
O que você faria se um dia se descobrisse invisível? Quer uma sugestão?
Leia “As confissões do Homem Invisível” !
Alexandre Plosk... você está aí?

PIT - Olá Alexandre! Um prazer tê-lo aqui no Papo em Comunidade!
AP -
Olá Patricia, olá a todos os leitores. O prazer é meu.


PIT - Você é formado em publicidade e cinema. Como começou o seu interesse em escrever?
AP -
Olha, não sou daqueles que escrevo histórias “desde pequenininho”. Lá pelos dezoito anos, tive uma paixão pelo cinema. Ficava imaginando fazer filmes, apesar de todas as dificuldades. Mas quando comecei a escrever meus próprios roteiros, percebi que a curtição maior era criar uma história, independente de ela vir a ser filmada. Aí fui embarcando cada vez mais na literatura. Não tem preço a liberdade de criar o que você quiser. Sem pensar em orçamento, no trabalho de convencer as pessoas... Isso sem falar no que me parece o mais especial na literatura: a capacidade de mergulhar no mundo interior dos personagens.

PIT - Quais são suas influências literárias?
AP -
No meu primeiro romance, “Livro Zero”, eu dou uma verdadeira lista alfabética. Rs... É que o personagem principal do “Livro Zero” vai cumprir uma pena num presídio. Lá, ele imagina que finalmente terá paz para escrever seu primeiro romance... Bem, antes de começar, ele busca inspiração e sai lendo a obra de dezenas de seus escritores favoritos. Para mim, Dostoiévski e Kafka estão num patamar especial. Mas daí seguem inúmeros escritores geniais: Lewis Carroll, Paul Auster, Murilo Rubião, Ian McEwan...

PIT - Como surgiu a idéia de “As Confissões do homem invisível”?
AP -
O meu ponto de partida foi a visão de um personagem que pudesse entrar na casa das pessoas. Alguém capaz de escutar os dramas que se passam no mundo entre quatro paredes. Um ser solitário vagando por entre esses universos tão particulares e humanos. Sua presença invisível teria um efeito reparador nos moradores, instalando calma e cumplicidade pelos cômodos da cidade.

PIT - No livro o espelho é o pivô da história. Você acredita que o espelho possa ser o condutor para um universo paralelo?
AP -
Quando “entrei na pele” do personagem, pra valer, o primeiro impulso foi o de procurar o espelho em busca de uma imagem, ou não-imagem. Ao não encontrar nenhum sinal de existência ali na superfície polida, o homem invisível fica fascinado por aquele espaço de onde agora está exilado. A partir daí, muita coisa mudou no romance.Naquele momento, eu mesmo não sabia o poder que o espelho teria na história. Acho que desde sempre o homem é fascinado pelo espelho. Talvez seja preciso sentir-se invisível para redimensionar este objeto tão simples e tão mágico.

PIT - Se tornar invisível é um desejo seu? O que você gostaria de fazer se pudesse ficar invisível? Brincar de Deus também?
AP -
Eu imagino que teria um comportamento parecido com o meu personagem. Primeiro, uma curiosidade enorme de acompanhar a vida das pessoas. Sabe quando você ouve o trecho de uma conversa na rua e fica super curioso para saber o desfecho? Pois o homem invisível pode penetrar nos bastidores, descobrir os segredos, as tristezas e as alegrias mais profundas do ser humano. Mas penso que, assim como ele, eu também não resistiria a um segundo passo: a vontade de interferir, de ajudar as pessoas em seus dilemas. No fundo, é um pouco o que um escritor faz. Ele se aproxima do outro, do leitor e, querendo, ou não, interfere na vida dele.

PIT - Em alguns momentos o personagem central fala de vivencias judaicas. O judaísmo é uma grande fonte de inspiração para você?
AP -
Total. Estudei no Barilan, colégio religioso e a relação homem-Deus, criador-criatura, para mim é fonte de inspiração tremenda. No “Livro Zero”, o escritor-presidiário acaba descobrindo que se tornou uma espécie de homem santo para os detentos. Atribuem a ele milagres e uma sabedoria divina. Uma situação a que ele resiste com todas as suas forças. No “Confissões”, abordo o tema da invisibilidade. Quase tão antigo quanto o homem. Ele é contado já por Platão em “A República”, na narrativa “O Anel de Giges”. Mas para mim, a idéia vem de muito antes. Vem da própria concepção de Deus. Minha herança judaica tem seu centro na idéia de um Deus invisível. Um conceito que é perturbador para uma criança. Ao mesmo tempo, é uma fonte de imaginação gigantesca. É um grande vazio a ser preenchido. Portanto, quando se funde essa idéia do Deus invisível com a de que o homem foi criado à sua imagem e semelhança, algo entra em curto-circuito. Há algum mistério aí que só atiça o caldeirão da ficção. Talvez não por acaso, quando realizei meu curta-metragem na faculdade de cinema, “A Caixa Preta”, contei a história de um homem que fala com uma mulher que nunca vemos. Ela é só uma voz. Como se fosse uma mulher invisível. Em certo sentido, as duas obras são complementares. E a frase com que abri o filme, poderia muito bem ser a epígrafe do livro: “E vos falou o Eterno do meio do fogo. Som de palavras vós ouvistes, porém imagem alguma não vistes. Tão somente uma voz.” Deuteronômio (4,12).

PIT - Você também é roteirista de TV e cinema. Você escreve os seus livros pensando na possibilidade de torná-los filmes?
AP -
Não. Na hora de escrever, o que vale é o fluxo literário, a prioridade é o mundo interior. Como aquele personagem está vivenciando, internamente, aqueles acontecimentos. Mas, no momento de reescrever, de trabalhar o texto e, principalmente, a estrutura do romance, tenho consciência de que de alguma maneira a narrativa cinematográfica acaba influenciando também. Há muitas décadas somos moldados por essa cultura de tv/cinema. Acho que a experiência como roteirista traz para a literatura essa preocupação de deixar uma história bem amarrada. Agora, o importante numa adaptação é saber que é uma outra obra. Vale criar novos personagens, cortar tramas paralelas... Livro e filme são línguas diferentes. A idéia é traduzir o sentido e não a forma. Tive a sorte de ter essa liberdade quando adaptei o romance policial “Bellini e a Esfinge” para o cinema. O Tony Bellotto, autor da obra literária, teve essa inteligência. Não só entendeu que era preciso fazer modificações. Ele foi além. Chegava ao ponto de vibrar com as invenções que fui criando em cima do livro dele. Porque sabia que estávamos construindo algo novo a partir da obra que ele criou.

PIT - Algum novo projeto em vista?
AP -
Desde que terminei meu primeiro romance tenho imaginado uma história em que se fundem os universos das artes plásticas e do misticismo judaico. Acho que vai ser algo por aí. Mas nunca se sabe. Existem várias idéias perambulando pela cabeça de quem trabalha com criação. Porém, na hora em que se começa o processo de realização, às vezes a mais inesperada se impõe sobre todas as outras.

PIT - “O Pomar” é o seu próximo livro? (risos)
AP -
É... No “Confissões”, eu comento esse livro imaginário, escrito pela personagem feminina principal. Não sei se vou escrevê-lo. Talvez seja melhor fazer como Borges. Às vezes a resenha de um livro jamais escrito pode ser mais interessante do que escrever o próprio livro. Pelo menos, dá muito menos trabalho. Rs...

PIT - Alexandre, muito obrigada por sua entrevista e deixe aqui o seu recado!
AP -
Legal, Patricia. É sempre bom poder falar sobre o nosso trabalho. A gente acaba aprendendo mais. O bacana da literatura é que a obra não se esgota quando colocamos o ponto final. Ao fim de cada leitura, cada leitor terá criado sua própria história. Isso faz de todos nós leitores, pessoas mais criativas e inventivas.





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quinta-feira, 13 de novembro de 2008






Shalom!
Você consegue pensar em um programa de TV que está há 47 anos no ar? Pois é, ele existe!
E o Papo de hoje é com o seu criador.
No ar: Francisco Gotthilf ou se preferir Senhor Mosaico!

PIT - Sr Francisco, é uma honra entrevistá-lo no Papo em Comunidade!
FG -
Muito obrigado, o prazer é meu!

PIT - Como surgiu a idéia de fazer um programa de TV?
FG -
Pouco tempo após a nossa chegada ao Brasil, em 1938, meu saudoso pai, Siegfried Gotthilf percebeu a necessidade que a comunidade tinha de se manter informada sobre assuntos do seu interesse. Assim iniciamos um programa de rádio “Hora Israelita” – em 1940: era um programa diário com músicas, notícias, informações sobre a Terra Santa e os judeus no mundo. No fim dos anos 50 a televisão no Brasil se tornou muito importante e decidi começar um programa ali de TV. Ele começou na TV Excelsior, em 16 de julho de 1961.

PIT - O programa Mosaico está no Guinness Book como o programa mais antigo da TV Brasileira: 47 anos ininterruptos! Como o senhor explica tal longevidade e sucesso?
FG -
Minha fórmula sempre foi a de estar aberto a todas as correntes, valorizar a comunidade e batalhar muito para ter bons patrocinadores. Acho que o apoio da Rachel, minha esposa, e a ajuda de meus filhos também foram fundamentais.

PIT - Conte para nós um momento emocionante ou marcante durante estes anos de Mosaico:
FG -
A cobertura da visita do 1o ministro israelense David Ben Gurion ao Brasil.
A primeira entrevista com Albert Sabin. As mensagens de Shaná Tová de praticamente todos os presidentes da República.

PIT - Para o Senhor, qual a importância de um programa como o Mosaico para as comunidades judaica e maior?
FG -
O Mosaico na TV mostra ao público em geral a participação positiva da comunidade judaica em todos os aspectos da vida brasileira. É indispensável para combater a ignorância que gera o racismo, que muitas vezes se transforma em anti-semitismo.

PIT - Além do Mosaico, o senhor também é muito atuante na comunidade judaica. O Sr Francisco é incansável?
FG -
Não, não, acho que todo mundo fica cansado! Mas também acho que é uma obrigação de todo judeu trabalhar pela sua comunidade. Por isso fui um dos criadores do Grupo de Escoteiros “Avanhandava” na Congregação Israelita de São Paulo: era uma forma de introduzir os filhos dos imigrantes que vieram da Alemanha e também de paises vizinhos na época nazista. Também me dediquei ao Hospital Albert Einstein, à Federação Israelita e, no momento, também sou o co-presidente da Bnai Brith - São Paulo, onde atuo e gosto de estar sempre presente.

PIT - Recentemente o senhor foi homenageado com um livro e um documentário. Revendo a sua história e seus feitos, o senhor tem a sensação de dever cumprido ou ainda tem algo a fazer?
FG -
Se Deus permitir pretendo continuar fazendo o programa na televisão, que faz parte de minha vida e de minha história. Acho que chegar aos quase 50 anos de televisão sem parar dá a sensação de dever cumprido. Mas ainda tenho muito a fazer!

PIT - Que conselho o senhor pode dar para quem quer fazer um programa de TV?
FG -
Conselho: ser persistente, não desistir. E se vocês tiverem alguém que pretende fazer um programa de televisão, terei a maior satisfação de manter contato e oferecer a minha experiência.

PIT - Qual o seu sonho?
FG -
Neste momento tenho dois: manter o Mosaico na TV no ar e fazer uma viagem para Israel.

PIT - Sr Francisco, muito obrigada por sua entrevista e deixe aqui o seu recado!
FG -
Agradeço a oportunidade da entrevista nesse Papo em Comunidade e desejo muito sucesso a você!









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quinta-feira, 6 de novembro de 2008




Shalom!
Ela é jornalista, mas a vida a levou para o cinema. Hoje faz documentários e já foi premiada pelo novo filme “ Meu Brasil”.
Luzes, câmera, ação:
Daniela Broitman

PIT - Olá Daniela bem vinda ao Papo em Comunidade!
DB -
Olá Patricia!

PIT - Quando você decidiu se tornar uma cineasta?
DB -
Sempre gostei muito de cinema. Quando decidi fazer jornalismo nafaculdade, tinha minhas dúvidas se deveria fazer cinema. Cheguei aconcorrer a uma bolsa para a Escola Internacional de Cinema e TV deSan Antonio de los Baños, em Cuba. Passei na primeira fase, masacabei desistindo, pois não era o meu momento de sair do país. Quando trabalhei no Estadão como repórter, eu escrevia muito sobrecultura, e muitas vezes fazia crítica de cinema. Em 1998 fui fazer mestrado na Universidade da Califórnia - Berkeley, e lá fui assistente do professor Kenneth Turan, crítico do jornal Los Angeles Times, no curso de crítica de cinema no Departamento de Jornalismo.

PIT - Por que você optou pelos documentários?
DB -
No meu mestrado, fiz TV e também fiz um curso de Históriado Documentário, para o qual tive que assistir e discutir dezenas defilmes. Foi uma época maravilhosa, apesar das dificuldades de ter que fazer um mestrado em outro idioma. Lá eu aprendi a editar em Avid, fazer trabalho de câmera, roteiro e produção para TV e documentário. No meu segundo ano de mestrado, recebi uma proposta de trabalho deuma "start-up", durante aquele boom da internet em San Francisco(Califórnia). Fui contratada para ser editora da seção de Cinema do site Streetspace e eles me pagaram um curso específico de edição de vídeo. Hoje entendo que tudo isso já estava me preparando para o caminho que vim a seguir, apesar da minha primeira escolha não ter sido cinema. Acabei estudando cinema na New York University, onde fiz um certificado em 2002. No final deste mesmo ano, voltei ao Brasil depois de seis anos nos Estados Unidos. Na bagagem, trouxe uma câmera digital, microfones, um Macintosh com software de edição e tudo o mais que era necessário para produzir um documentário, que era o que eu mais queria naquele momento. Com tantos anos no jornalismo, acho que foi um caminho natural a opção por documentários. Mas tenho vontade de fazer muitos outros projetos, inclusive de ficção.

PIT - “A Voz da Ponta” foi sua estréia no cinema, conte-nos um pouco sobre este filme.
DB -
A produção de "A Voz da Ponta" começou justamente na minha volta ao Brasil em outubro de 2002. Minha motivação para me envolver de corpo e alma neste projeto foi uma imagem que não esqueço nunca: no caminho do aeroporto do Galeão para a Zona Sul, vi aquele mar de favelas que tinha tomado conta do Rio de Janeiro. Fiquei muito impressionada com aquela imagem e senti a necessidade de entender o que estava acontecendo no Brasil, como a pobreza estava crescendo tanto. "A Voz da Ponta", entre outros temas, conta sobre o surgimento de uma favela no Rio chamada Terra Encantada. Na época existia um parque de diversão na Barra da Tijuca com o mesmo nome. Aquilo era muito irônico: por um lado, um grupo social que havia ganhado muito dinheiro no Brasil, mais conhecidos como "novos-ricos" (muitos dos quais foram morar na Barra da Tijuca no Rio); por outro lado, um grupo cada vez mais pobre, que tinha que brigar por um metro de terra invadida para construir um barraco de telha. Estes que lutavam na favela por um pedaço de terra - na verdade, uma moradia, direito de todos os cidadãos brasileiros, de acordo com o Artigo Sexto da nossa Constituição - são sempre retratados como bagunceiros, bandidos, etc e só aparecem na mídia quando há tiroteio, desmoronamento, blitz policial ou algum outro tipo de tragédia. Só se fala dos traficantes das favelas. Mas e os outros 98% dos moradores da comunidade que são trabalhadores e pessoas honestas que vivem no meio desse caos social? Eu precisava ir a fundo nesta questão para compreender melhor esta diferença social vergonhosa que existe em nosso país e quem sabe poder contribuir de alguma maneira para uma transformação pela qual o Brasil precisa passar. "A Voz da Ponta" é a voz dos invisíveis, dos excluídos, dos nossos "intocáveis", de todos aqueles que sofrem a injustiça social deste país. Creio que o fato de ser filha e neta de judeus imigrantes, que passaram por campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial e perderam tudo o que tinham, seja uma das minhas motivações para fazer filmes que discutem temas como igualdade e paz.

PIT - O seu recente filme “Meu Brasil” conta a história de vários lideres comunitários. Como surgiu a idéia deste filme?
DB -
Desde 2002 tenho contato com lideranças comunitárias, associações demoradores e ONGs no Rio de Janeiro. Em 2004, fiz uma parceria com o Comitê Rio do Fórum Social Mundial para selecionar um grupo de 33 líderes comunitários para irem ao Fórum Social Mundial, os quais seriam os personagens do meu documentário "Meu Brasil". Quando comecei o projeto não sabia ainda quem seriam os personagens principais. A idéia era levar esse grupo ao Fórum, oferecer capacitação a eles e ver o resultado. Ao longo da produção foi ficando claro que se eu queria fazer um filme que falasse sobre diversidade e discriminação, eu tinha que ter três personagens principais que representassem bem estas questões. A Gaúcha, a Juliana e o Carlos têm histórias de vida e perfis bem diferentes, mas seus ideais são muito similares: combater a discriminação e trazer melhorias para sua comunidade.

PIT - Falando dos personagens, o que você aprendeu com eles?
DB - Com cada personagem aprendi algo especial:
Com a Gaúcha, aprendo até hoje, pois é com quem eu mais tenho contato. Não tenho visto a Juliana, pois ela mora em Três Rios e oCarlos anda meio sumido. Toda vez que encontro com a Gaúcha, ela mesurpreende com uma nova história. Outro dia numa apresentação do filme que fizemos na Faculdade ESPM, ela contou como foi abandonada pelo marido, grávida do sexto filho, que acabou perdendo. Eu quase chorei. Olhando ali pra ela, com aquela força e garra, eu não podia acreditar que aquela senhora de 65 anos tinha passado por tudo aquilo. Hoje sua maior luta é para manter a COMZO (Conselho da Mulherda Zona Oeste), associação que ela fundou e para a qual está buscando uma sede. Com o Carlos, aprendi sobre a beleza e a importância da reciclagem(ele ensina jovens a reciclar lixo e a fazer arte com esse material). Carlos é ambicioso e muito batalhador, e vive cercado de adolescentes que trabalham com ele nos projetos sociais da sua ONG comunitária Ecologic Bike. Já a Juliana é uma figura polêmica. Uma travesti de quase 2 metros de altura que às vezes é de uma ingenuidade espantosa, apesar de tudo que ela já teve que enfrentar em termos de discriminação. Nas filmagens me diverti muitíssimo com ela, pois é engraçada, desbocada e sincera. O que mais me intrigou na Juliana é que ela é uma travesti que, diferentemente da maioria, não se prostituiu. Ela batalha para estudar, ter uma profissão e poder ajudar sua família e comunidade. O que aprendi com eles? Uma pergunta que não quer calar: se eles, que estão numa situação econômica tão difícil, podem contribuir de alguma maneira para um mundo melhor, como tantas pessoas que têm uma condição financeira melhor não fazem nada?

PIT - Como foi receber o premio Júri Popular no Cinesul? Você já esperava por isto?
DB -
Nossa, foi maravilhoso, claro. Na hora que falaram o nome do filme (Meu Brasil) e meu nome no palco na premiação, eu não conseguia nem levantar dacadeira de tão surpresa que fiquei. Tanto não esperava que não tinhanem preparado discurso, tive que improvisar. E claro, tinha que oferecer aquele prêmio aos líderes comunitários do filme e a todos os outros que lutam dia-a-dia para melhorar a condição de vida em suas comunidades.

PIT - Quando poderemos assistir “Meu Brasil”?
DB -
"Meu Brasil" estréia nos cinemas do Rio de Janeiro e São Paulo dia 14 de novembro no circuito Unibanco Arteplex. No Rio entrará em cartaz no Unibanco Arteplex de Botafogo, e em São Paulo a sala só será confirmada daqui alguns dias (verifiquem nos jornais ou no site do filme na semana da estréia). Também deve ser exibido no Ponto Cine na Zona Oeste do Rio, aonde foi filmado boa parte do documentário. Depois iremos para outros estados. Para mais informações sobre "Meu Brasil", acesse: www.videoforum.tv/meubrasil

PIT - Como é fazer filme no Brasil?
DB -
Muitas pessoas, até alguns amigos, têm vindo me procurar dizendo que querem fazer cinema. Um conselho que sempre dou: faça uma boa poupança antes de começar! Não estou brincando. Nessa profissão você mais paga para trabalhar do que recebe. É incrível o empenho, dedicação e dinheiro que você tem que colocar no projeto quando está começando. É muito esforço mesmo. A maioria dos diretores que conheço veio da publicidade (às vezes ainda trabalham com publicidade), ou então tem outra profissão ou dão aula em faculdade, creio que estessão caminhos mais fáceis. Mas eu arrisquei tentar viver só de documentário e eventualmente fazer projetos institucionais, mas tenho que batalhar muito até hoje. Ou seja, é uma luta constante.

PIT - Algum projeto em vista?
DB -
Ganhei uma bolsa da Fundação Guggenheim de Nova York para desenvolver meu próximo projeto: um documentário sobre o músico e ativista social Marcelo Yuka (ex-baterista da banda O Rappa).

PIT - Daniela, muito obrigada por sua entrevista e deixe aqui o seu recado!
DB -
Estamos distribuindo "Meu Brasil" através de um projeto inovador chamado Distribuição Criativa, da Pipa Produções, que recebeu apoioda Secretaria do Audiovisual e do MinC. Estamos investindo na formação de público e tentando fazer com que pessoas que não têm condições de ver o filme possam vê-lo, através da distribuição de vale-cinema (ingresso gratuito) e vale-promoção (o espectador pagaapenas R$ 5,00). Ambos vales são aceitos em qualquer cinema em que o filme estiver sendo exibido, em qualquer dia e horário. Se alguma instituiçãoeducacional, associação ou ONG quiser vales-cinema ou vales-promoção, por favor, nos procure: info@videoforum.tv. Também oferecemos exibições fechadas para empresas e organizações seguidas de debates com a participação da diretora (eu!) e líderes comunitários. Várias organizações têm nos procurado, pois o filme serve como ferramenta educacional e de capacitação, além de ser uma obra informativa e de entretenimento. Se alguém quiser mais informações, meu e-mail é: daniela@videoforum.tv
Obrigada!!


Assista aqui o trailer de Meu Brasil

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